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Sabem, ele é como realeza no exílio

Publicada por Sapec segunda-feira, 23 de março de 2009
















Samuel Úria, cantor e compositor, foi para o espelho ensaiar um sorriso à Mickey Rourke


Vou para a frente do espelho ensaiar um sorriso à Mickey Rourke. As primeiras tentativas são demasiado expansivas e a coisa descamba para o Bruce Willis. Relaxo (algumas contracções faciais à De Niro ajudam a desanuviar) e volto a tentar. Sei que o princípio brucewillisiano da coisa não andava longe: a técnica de sorriso do Rourke passa por um semelhante degustar da própria boca e é assim que chego à imitação satisfatória. Contudo não esqueço que um sorriso está para além da sua mecânica. Quando saboreio a minha própria boca, obviamente o gosto que sinto é o meu próprio - torna-se amargo o sabor deste saber: não sou o Mickey Rourke. De repente não há assim tantos motivos para sorrir.
"Sabes, ele é como realeza no exílio" é uma grosseira tradução minha, que não tenho o "Rumble Fish" do Francis Ford Coppola legendado. A frase é dita a meio do filme por um anónimo jogador de snooker que tenta descrever o Motorcycle Boy, o messiânico/sebastiânico/maughamiano/flautista-de-Hamelin/angelical/desditoso personagem de Rourke em 1983. Se houvesse um Oscar para melhor vaticínio, esta frase teria sido nomeada; se houvesse um exílio chamado "más escolhas de carreira", então a frase teria certamente arrecadado a tal estatueta profética.

Do principesco Mickey ao desfigurado Rourke vão 20 anos com material para lenda. Se por um lado aceitava papéis falhados em fitas fracassadas, a sua história faz-se sobretudo da recusa de papéis certos em filmes bem sucedidos. A galeria de rejeições imprudentes está tão recheada que me faz sublinhar o carácter lendário de tudo isto. Do pugilista de Willis em "Pulp Fiction" ao "yuppie" egoista de Cruise em "Encontro de Irmãos"; do escocês imortal de Lambert em "Highlander" ao irredutível agente federal de Costner em "Os Intocáveis": tudo papéis oferecidos a Mickey, recusados por Mickey. Até há o caso de personagens pensadas para Rourke que foram parar ao corpo de Eddie Murphy, vá-se lá imaginar. Digam-me que a Kate Winslet só abriu as asinhas na proa do "Titanic" porque Mickey Rourke não esteve para isso e eu acredito.

Sabem, ele é como realeza. Mas por Rourke não nutrimos só aquela simpatia institucional que se tem pelas famílias reais: somos monárquicos convictos. Como se explicaria de outra forma o facto de não termos perdido a esperança? É que realmente nunca a perdemos. Apontar para o desajuste das suas escolhas é assumir que ele não está ajustado para o mau. Mickey Rourke falha sucessivamente, não é sucessivamente um falhado. Pode andar a desfigurar os seus "rugged good looks" em combates de boxe que o sangue derramado no ringue continua a ser azul.

Já há largos meses que ouço falar no "The Wrestler". Apercebo-me do respeito e boas expectativas que acalento pelo filme quando, nem por segundos, me senti compelido a sacá-lo ilegalmente da internet (obviamente isto não é matemático, ou teria que admitir o meu respeito e boas expectativas por, sei lá, o "Saw V"). I choose to wait como um adolescente evangélico americano, mas confesso que já salivo por essa apregoada pérola rourkiana. Não espero um regresso em grande, porque esse já se pode ter consumado no filme "Sin City". É verdade que "Sin City" teve o condão paradoxal de tornar a transposição de páginas de papel para o cinema numa coisa chata, estanque e bi-dimensional, mas o Marv interpretado por Rourke está acima da fita. Rourke feio a fazer de um feio; um desfigurado intensivamente maquilhado para interpretar um desfigurado. Do Motorcycle Boy de Coppola ao Marv de Rodriguez/Miller temos uma via sacra chamada Mickey Rourke: um aprazível "misfit" a tornar-se num deformado "misfit", ambos condenados, ambos a preto e branco, ambos maiores do que a vida. Desde que o David Bowie deixou os andrajos "glam" para ser um "crooner" engravatado que não víamos tão cabal transformação de borboleta em lagarta. Rugosa e esplêndida lagarta.

Se ouvirmos as falas de Mickey no "Rumble Fish" e logo a seguir no "Sin City" vamos experimentar um enleio que apenas tem par nas audições seguidas de um disco do Leonard Cohen dos anos 60 e outro dos anos 80. O que aconteceu àquela voz? Como é que o tom mavioso e acriançado se tornou num áspero catarro de dragão? Rourke deve ter fumado mais que um Marlboro Man, bebido mais que os financiadores do "Harley Davidson and the Marlboro Man". Maus hábitos de um católico devoto, republicano bushista, pugilista de cara retalhada. Com tais qualidades é possível não torcer pelos seus regressos triunfantes? E por pouco que me esteja a ralar para a Academia de Hollywood, por pouco que queira saber se o "supporting role" vai para um finado, tenho os dedos cruzados para que o Oscar de melhor actor pare nas mãos do velho Mickey.

Por causa de me estar a borrifar para a Academia, lembrei-me disto: tinha uns 14 anos quando os Oscares me consciencializaram do seu próprio descrédito. Foi na edição em que para filme do ano se rejeitou o "Pulp Ficton", o tal que também o Mickey rejeitara. O prémio calhou ao "Forrest Gump", fita onde um pateta ia acidentalmente marcando a segunda metade do séc. XX. Se bem me lembro, uma dessas marcas passava pela invenção casual do boneco Smile, aquele círculo amarelo com um suposto sorriso universal. Em verdade vos digo, também Rourke teria relegado esse filme. Porque um sorriso não é um arco aberto para cima. Quando degustarem a vossa boca e vos souber a Mickey Rourke, saberão o que estou a dizer.

Espero o "The Wrestler" com a curiosidade de saber o quanto resta da expressão facial rourkiana antiga. Saber quanto é que a patine das operações plásticas continua a roubar ao clássico esgar. Não vou chorar se tudo o que sobrar daquele maravilhoso sorriso for um maravilhoso sorriso implícito. Porque se há alguém capaz de destronar a Gioconda só pode ser o Mickey. "Sabes, ele é como realeza no exílio", disse o anónimo jogador de snooker, ao que lhe perguntaram retoricamente "Haverá alguma coisa que ele não consiga fazer?".

By Público.

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